Crianças internadas em UTI pediátrica frequentemente cursam com anorexia e/ou intolerância alimentar, o que resulta em déficit de macronutrientes — historicamente associado a pior desfecho. Essa observação sustentou, por anos, a lógica de que suplementar precocemente com nutrição parenteral, quando a via enteral é insuficiente ou contraindicada, seria benéfico. Uma revisão narrativa publicada em 2025 na revista Clinical Nutrition, assinada por Jan Gunst, Ilse Vanhorebeek, Sascha C.A.T. Verbruggen, Karolijn Dulfer, Koen F.M. Joosten e Greet Van den Berghe, revisita essa lógica à luz do estudo multicêntrico randomizado e controlado PEPaNIC.
O que mostrou o PEPaNIC
O estudo comparou a suplementação precoce de nutrição parenteral, diante de nutrição enteral insuficiente na primeira semana de UTIP, com a simples aceitação de um déficit de macronutrientes nesse período. Ao contrário do que se esperava, a suplementação precoce não melhorou o desfecho — pelo contrário: aumentou a incidência de infecções e prejudicou desfechos de neurodesenvolvimento avaliados 2 e 4 anos depois. O dano apareceu em todos os subgrupos analisados e pareceu explicado especificamente pela dose de aminoácidos administrada — não pela dose de lipídios ou de glicose.
Mecanismos propostos
Os autores discutem possíveis explicações para o dano associado à nutrição precoce intensificada:
- Supressão de vias de reparo celular, como autofagia e cetogênese;
- Bloqueio de alterações adaptativas do metabolismo do hormônio tireoidiano induzidas pela própria doença crítica;
- Hiperglicemia mais acentuada, de origem iatrogênica;
- Aumento da atividade do ciclo da ureia por resistência anabólica;
- Indução de modificações epigenéticas que parecem mediar prejuízos em longo prazo.
Na prática
Esses achados surpreenderam boa parte dos intensivistas pediátricos e vêm mudando — lentamente — o paradigma de manejo nutricional na fase aguda da doença crítica: hoje se caminha para uma administração mais restritiva de macronutrientes nesse período, desde que micronutrientes sejam mantidos para evitar deficiências e síndrome de realimentação. Os benefícios da resposta de jejum precoce (fasting) têm ficado cada vez mais claros nesse contexto, abrindo espaço para novas estratégias que tentem ativar o reparo celular induzido pelo jejum sem incorrer em inanição prolongada.
Este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação clínica individual do paciente crítico.
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